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Carta aberta a um grande cronista

Carta aberta a um grande cronista

Falar de um amigo sempre é fácil. Quando o amigo é muito querido, fica um pouco mais difícil. Quando o amigo é querido e uma referência nacional, como este cronista, é quase impossível. Quase.

Escrevi sobre Marina Colasanti, sua companheira de vida, no mês passado. Ela se foi, ele a seguiu. Esse mineiro de Juiz de Fora, faria 88 anos no dia 27 de março. Estava afastado desde 2017, definhando a mente brilhante com o Alzheimer. Tive a tristeza do carnaval com a notícia de sua morte.

Um homem tão produtivo quanto generoso. Suas crônicas foram lidas em várias revistas, jornais e portais digitais. Fez muitos programas de rádio. Foi lido e ouvido por mais de cinquenta anos. Poeta, ensaísta, cronista, diretor da Biblioteca Nacional e tantos outros títulos. Amigo dos amigos. Sempre uma boa palavra para animar os novatos.

Tivemos encontros maravilhosos. Ele vinha do Rio para falar a poucos escritores de nossas oficinas em São Paulo. Que leituras ele fazia, quantos vazios se preencheram com suas palavras.

Mais do que falar sobre ele, deixo aqui um trecho da entrevista dada à Biblioteca pública do Paraná, quando responde o que é a crônica:

“… Não sou um escritor ingênuo. Tento entender o que faço, porque faço e como faço. […] O que existe teoricamente sobre crônica ainda é muito precário. A universidade precisa descobrir a crônica. Não é um simples blá-blá-blá como supõem alguns. O cronista é um jornalista a quem é permitido falar na primeira pessoa, mas seu “eu”, como na boa poesia, tem que ser de utilidade pública, diria que o cronista difere do “colunista”, do “articulista” e do “comentarista”. Tecnicamente, o cronista é metonímico: através de um detalhe ele fala do todo. O jornal noticia, o cronista interpreta o fato afetivamente e alegoricamente. O cronista olha pelo buraco da fechadura. Há escritores que escrevem crônicas, mas nem todo escritor é um (bom) cronista. E há escritores essencialmente cronistas, como Rubem Braga. Ele é o inventor da crônica moderna, da mesma maneira que Nelson Rodrigues inventou um tipo desconcertante de crônica de futebol. Há aqueles, como Fernando Sabino, que foram devorados pela crônica. Sendo um escritor crônico, estou preso ao meu tempo: é daí que parte minha perplexidade diante da história e do cosmos. Literatura é uma forma de transcendência. E o cronista que não transcende o seu eu e o instante será relegado à peça arqueológica. Tenho a noção de que minha obra de poeta-cronista-ensaísta está entrelaçada.

Sua obra é eterna. Salve ARS!

Aproveito para indicar uma crônica muito conhecida de Affonso Romano de Sant’Anna, no livro de mesmo nome, Rocco Editora, 1988.

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Ah, Marina!

Ah, Marina!

Muita gente conhece e fala sobre a FLIP (Festa Literária de Paraty), mas nem imagina que a Jornada Literária de Passo Fundo foi criada em 1981, numa iniciativa da professora Tânia Rösing e o escritor Josué Guimarães.

Quando fui convidada pela amiga escritora/advogada/jornalista Mariza Baur para participarmos da 12ª Jornada, em 2007, não entendia a dimensão do evento. Foi uma sucessão de maravilhamentos.

Antes de encontrar presencialmente os autores, os leitores (escolas dos municípios vizinhos) se preparavam com a leitura prévia das obras. Uma dinâmica que deu muito certo e foi replicada desde então.

Vamos democratizar a informação para o mundo, transmitindo os debates ao vivo pela Internet. Isso nos enche de alegria. Não podemos ficar fechados, precisamos aproveitar a tecnologia”, anunciou a professora Tania Rösing, naquele ano. Não havia nem WhatsApp!

Mariza e eu voamos ao lado de José Mindlin e a filha Betty. Num acaso cheio de boa fortuna, ficamos num hotel cheio de escritores, que conhecíamos de nome e de quem nos tornamos amigas.

Entre eles, Zé Roberto Torero e Marcus Aurelius, parceiros em vários títulos, com quem fizemos passeios adoráveis. E destaque para Affonso Romano de Sant’Anna e Marina Colasanti.

Marina com aqueles olhos verdes e aquela boca de risos perfeitos, nos dava os vouchers do almoço, na sala dos autores, e ficávamos nos deliciando com seus comentários francos, sua generosidade nas dicas para duas, então, iniciadas no ramo da literatura. A jornada foi desativada por falta de patrocínios, argh!

Só perdemos o contato depois da pandemia de 2020. Pela manhã, quando soube de sua morte, logo pensei em Mariza, que minutos depois me manda a mensagem: “Memê querida, tudo bem? Você viu? Acaba de morrer a querida e competente Marina Colasanti. Lembra como foi bacana quando a conhecemos na Jornada de Passo Fundo?”. Como não lembrar?

Marina comentou, à época, sobre o número de crianças presentes na jornada: “Nunca vi tanta criança junta na minha vida, e o mais bonito é vê-las aqui para falar de literatura”. Torero complementou: “Não quero ir embora, aqui me leem! Aqui me leem!

Quando uma criança perguntou à Marina de onde vinham as ideias, ela respondeu: “As ideias estão em todo o lugar e você tem que ir até lá e pegá-las. Algumas delas servem para algumas pessoas e não para outras, cada um escolhe as suas. O escritor está sempre com a antena ligada em busca de ideias para contar as suas histórias”.

Sei que Affonso não escreve mais, deve estar abaladíssimo; eles foram companheiros de uma vida dedicada às artes.

Se você quiser saber sobre a obra de Marina Colasanti, dê um Google, são mais de 70 livros em uma carreira bem-sucedida em tudo, vários prêmios importantes no Brasil e no mundo.

Estou triste com a notícia, mas feliz de, ainda, ter as memórias, porque as fotos tiradas por Mariza, estão em algum disquete, perdido em alguma caixa, esquecida em algum armário.

Texto: May Parreira